O açúcar

de Ferreira Gullar


O branco açúcar que adoçará meu café 
nesta manhã de Ipanema 
não foi produzido por mim 
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro 
e afável ao paladar 
como beijo de moça, água 
na pele, flor 
que se dissolve na boca. Mas este açúcar 
não foi feito por mim.

Este açúcar veio 
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. 
Este açúcar veio 
de uma usina de açúcar em Pernambuco 
ou no Estado do Rio 
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana 
e veio dos canaviais extensos 
que não nascem por acaso 
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital 
nem escola, 
homens que não sabem ler e morrem de fome 
aos 27 anos 
plantaram e colheram a cana 
que viraria açúcar.

Em usinas escuras, 
homens de vida amarga 
e dura 
produziram este açúcar 
branco e puro 
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

 

 

Sobre este poema existe uma excelente análise por Hermenegildo José Bastos (pdf).

 

Se quiserem mais, vale também o livro de Gilberto Freyre ‘Assucar: uma Sociologia do Doce’ de 1932. Neste, o educador reuniu diversas receitas tradicionais de bolos e doces de famílias tradicionais do nordeste brasileiro. Para ele, o açúcar foi responsável pela deescravidão, pela reunião de culinárias e culturas.